O primeiro gol do Brasil nem sempre chega pela televisão. Em muitos bares e restaurantes de Campo Grande, os garçons descobrem o lance pelos gritos que vêm da rua e só depois olham para a tela. A cena se repetiu na noite desta quarta-feira (24), durante a partida entre Brasil e Escócia, quando profissionais do atendimento dividiram a atenção entre clientes, bandejas e a torcida pela Seleção. Na Confraria da Pizza, na região do Universitário, o garçom Victor Corrêa, de 19 anos, viveu a primeira Copa do Mundo atrás das mesas. Há cerca de seis meses na profissão, ele diz que ainda estranha passar os jogos trabalhando, mas tenta acompanhar a partida sempre que surge uma brecha. "Quando sai gol na rua, a gente já escuta o pessoal gritando antes. Aqui a transmissão está um pouquinho atrasada, então a gente já sabe o que aconteceu. É engraçado", conta. Entre um pedido e outro, Victor admite que gostaria de estar em casa ou reunido com amigos, mas concilia a rotina de trabalho com a faculdade durante o dia. "Às vezes eu queria estar em casa ou na casa de um amigo comemorando, mas tem que trabalhar." Apesar da correria, ele diz que os clientes costumam entender a situação e até incentivam os garçons a assistir aos lances decisivos. "Semana passada veio um pessoal bem gente boa que falava para a gente parar um pouquinho e acompanhar o jogo." No Chácara Cachoeira, o cenário era parecido na churrascaria Canto do Cupim. Enquanto o salão enchia para acompanhar a Seleção, o barman Valter Igor Vieira, de 43 anos, conciliava o atendimento com a expectativa pelo resultado. Há 22 anos na profissão, ele afirma que o maior desejo seria assistir à partida ao lado da família, especialmente do filho. "Eu sou pai de menino e sei como é importante acompanhar os jogos dos filhos. Hoje, por exemplo, gostaria de estar com o meu filho assistindo à Copa do Mundo, mas também preciso trabalhar. Tudo o que faço aqui é em benefício da minha família." Para o garçom Nelson Quintana, de 51 anos, a Copa no trabalho já virou tradição. São 35 anos na profissão e, desde 2013 no restaurante, ele acompanhou as últimas edições do torneio servindo mesas. O único jogo que conseguiu assistir em casa aconteceu durante uma folga, quando o filho tinha apenas 6 anos. Hoje, o rapaz já completou 18. Mesmo assim, Nelson garante que prefere viver o clima do restaurante. "Muita gente pergunta se eu prefiro trabalhar ou assistir aos jogos, mas eu gosto de estar aqui. Eu me divirto junto com os clientes, torço com eles e vivo toda a emoção das partidas. Prefiro estar no movimento do que parado em casa." A mesma opinião é compartilhada pelo garçom Júlio Borges, de 22 anos. Há cinco anos na profissão, ele acompanha a segunda Copa do Mundo trabalhando e diz que o ambiente faz toda a diferença. "Prefiro estar trabalhando do que em casa assistindo aos jogos. Gosto mais de torcer junto com a galera, com os clientes e os amigos que estão aqui. O clima é diferente, a emoção é compartilhada." Quem também já transformou a Copa em parte da rotina é o subgerente Reabes Jesus, de 43 anos. Depois de 26 anos no ramo, ele perdeu a conta de quantas partidas da Seleção acompanhou durante o expediente. "Aqui a gente assiste aos jogos junto com os clientes, bate palma, grita, comemora e vive toda a emoção da partida. Também tive a oportunidade de acompanhar títulos do Brasil trabalhando. É uma sensação muito especial viver isso ao lado dos clientes."
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