Expulso de uma escola e orientado a sair antes de novas expulsões em outras duas de Campo Grande, o filho da supervisora comercial Luciana Soares da Silva, 43 anos, já questionou a mãe se o melhor seria parar de estudar. O menino tem 13 anos e diagnósticos de transtornos mentais desde os 6. Entre eles, o mais difícil de lidar no contexto escolar é o TOD (transtorno opositivo desafiador), conforme o que Luciana escuta de profissionais que o atendem desde a infância. O estudante também tem depressão, ansiedade e TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade). É bom aluno, tira boas notas, aprende com rapidez, mas “não consegue parar, bate nos colegas e desafia os professores”, explica a mãe. A primeira expulsão ocorreu numa escola municipal e foi motivada por agressão. “Ele sofre muito bullying, então reagiu”, diz. O problema se repetiu nas duas escolas estaduais onde foi matriculado depois. Luciana reconhece que a situação é difícil para as escolas, mas lamenta que nenhuma das três por onde o filho passou tenha mostrado preparo para lidar com o TOD e os outros diagnósticos. Apenas na primeira ele contou com professor auxiliar. “Foi a época em que ele mais se desenvolveu, inclusive”, destaca. A mulher relata que o filho chorou pela forma como um diretor adjunto se referiu a ele durante uma reunião com a mãe. Isso ocorreu na última escola onde estudou. “No início, acolheram bem, mas nessa ocasião não conversaram de um jeito respeitoso”, afirma. O menino falou que queria desistir de estudar após isso, mas Luciana insiste. A supervisora comercial diz que o menino toma quatro medicamentos para regulação emocional e para se concentrar desde que recebeu o diagnóstico, justamente para evitar confrontos físicos e outras reações explosivas, principalmente as que são características do TOD. “Mas é sempre uma dificuldade para acertar os remédios, as doses. Tem um que parece não estar fazendo efeito. Agora vou começar a comprar outro que custa R$ 350 a caixa”, descreve. Luciana percebe que a adolescência está sendo ainda mais desafiadora que a infância do filho. O ideal seria ele conseguir sessões de terapia com mais frequência. “Só consigo um dia por semana com uma psicóloga que conheci na igreja e não cobra nada. Precisávamos de mais vezes”, complementa. Ela disse que vai tentar vaga para atendimento psicológico na rede pública. Defensoria Pública - A mãe procurou o Ministério Público de Mato Grosso do Sul depois que o menino teve que deixar a terceira escola. Foi encaminhada para a Defensoria Pública, onde foi atendida há cerca de três semanas. A instituição a ajudou a pedir à Semed (Secretaria Municipal de Educação) que o direcionasse para uma nova escola. Luciana disse que conseguiu a vaga e fará a matrícula nesta semana. A expectativa é que ele volte a estudar na semana que vem. Apesar das dificuldades e de enfrentar todas elas sendo mãe solo e trabalhadora em tempo integral, ela não quer desistir do filho. "Já me falaram até para abandoná-lo. Deixar com o pai para que ele se vire. Mas eu não vou fazer isso, ele é meu filho", conclui. O TOD - O distúrbio está catalogado em manuais de psiquiatria e é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento e do comportamento disruptivo, que pode se associar ao TDAH, como é o caso do menino. Ele não é entendido como uma deficiência. O TOD é caracterizado por um padrão persistente de comportamento desafiador, irritabilidade, oposição a regras e conflitos com figuras de autoridade. Costuma se manifestar na infância. O tratamento pode incluir acompanhamento psicológico, orientação familiar, apoio escolar e, em alguns casos, medicamentos para sintomas associados. Secretarias - A reportagem questionou a Semed e a SED (Secretaria Estadual de Educação), que gerenciam as escolas por onde o estudante passou, sobre a formação dada aos profissionais para lidarem com os diagnósticos, os espaços de atendimento disponíveis e o direito ao professor auxiliar. A Semed não deu retorno até a publicação desta matéria. Já a SED afirmou que "estudantes com esse perfil não se enquadram no atendimento da Educação Especial, mas eles contam com o atendimento em SAPs (Salas de Apoio Pedagógico), na Rede Estadual de Ensino". O encaminhamento para o atendimento com professor de apoio ocorre "somente após avaliação específica e para aqueles estudantes com deficiência", completou. Quanto às formações para lidar com alunos com laudos psiquiátricos, a pasta afirmou que "todos passam por processos formações continuadas por todo o ciclo", finalizou.
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